Como Escolher um Professor Particular de Inglês

Como Escolher um Professor Particular de Inglês

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22 janeiro, 2020 Por Jordan Hahn Bandeira

Nunca me canso de pensar na semelhança entre o "homem que sabia javanês", do conto do Lima Barreto, e certos "professores de inglês" que andam por aí. Para cada golpista escondendo uma ervilha debaixo da casca de nós, existe alguém suficientemente ingênuo para se deixar enganar. Costumo dizer, parafraseando Oscar Wilde, que no Brasil sabemos o preço de tudo e não sabemos o valor de nada. O resultado vem na forma da pergunta que mais escuto: "Quanto custa sua aula de inglês?"
Isso não seria um problema se as pessoas fazendo a pergunta não tivessem, com frequência, trajetórias complicadas, seja em escolas ou com professores particulares, que simplesmente não deram conta do recado e não estivessem me procurando para remediar estragos feitos no passado. Ainda assim, não parecem ter entendido que o barato pode sair caro. Se o preço de uma hora aula é um conceito bem concreto, o valor dessa mesma hora é, por outro lado, bastante relativo. O que vale mais? Uma aula de R$ 5,00 que não faz nada por mim ou uma de R$ 200,00 que resolva, de uma vez por todas, os problemas que se arrastam por anos, sem prenúncio de solução? É lógico que preço tão somente não é garantia de nada, muito menos em um mundo movido a marketing. Então, como escolher um professor particular de inglês?
Os americanos costumam dizer que para escolher um imóvel o importante é "localização, localização e localização". Se tivesse que criar um mantra semelhante sobre professores, seria: "credenciais, credenciais e credenciais". Se eu estivesse procurando um professor para alguém importante para mim, é nisso que me concentraria. Tenho muita dificuldade de aceitar pessoas sem formação específica na área, mas que se acham qualificadas para lecionar inglês. Inglês talvez seja a disciplina que mais atrai picaretas e oportunistas para o mercado de ensino. O sujeito volta da Disney e acha que pode dar aula de inglês. A adolescente foi au-pair de uma família na Flórida que só falava espanhol e acha que pode dar aula de inglês. O advogado está sem
clientes e recorre a dar aula de inglês. O estrago que essas pessoas fazem é enorme e é preciso muito tempo e esforço para consertar. Isso quando tem conserto. Há erros que, quando não corrigidos a tempo, tornam-se o que os professores chamam de "fossilizados". Já viu um arqueólogo escavando um fóssil? Fósseis são duros como pedra e exigem extrema competência ao serem retirados do seu entorno.
Por mais bem intencionados que sejam esses "professores" e por mais que pensem ser qualificados, o fato é que não são. Não possuem sequer instrumental para entender que não são. Ser capaz de ensinar implica inúmeras habilidades naturais, mas também exige conhecimento técnico. A prova é simples. Você acha que poderia ensinar português a um estrangeiro de forma eficaz e correta pelo simples fato de ser falante de português? A maioria das pessoas vai responder que não. A minoria que respondeu "sim" sofre de sérios problemas psicológicos e éticos. Saber português não nos faz professores de português, mas o inglês tem essa propriedade mágica de fazer com que as pessoas se achem capazes de ensiná-lo, mesmo quando não têm formação para tal.
Mas e a tal da experiência? Muitos professores de araque tentam camuflar a situação usando sua palavra favorita: experiência. Experiência é fundamental, mas experiência em que exatamente? Se o indivíduo passou 10 anos de sua vida dando aulas sem ter sido devidamente treinado, essa experiência pode ser tão somente a experiência de fazer estragos. Experiência sem pedagogia, sem didática, sem capacidade de diaganóstico não vale absolutamente nada. Outra palavra perigosa é "resultado". Resultados são, obviamente, o objetivo do jogo, mas tenha cuidado com quem só fala neles para fugir da falta de formação específica. Lembre-se que o resultado que conta é o que você vai ter, não o que dizem que outras pessoas tenham tido. Eu acredito no Método Científico: resultados precisam ser verificáveis. Por falar em método, um professor de verdade sabe explicar o método que utiliza. Se o método for simplesmente "seguir o livro", é hora para um sonoro: "Você está demitido!"
Agora, tratemos do interessante caso do falante nativo, Em 2009, numa entrevista para o G1 o linguista David Graddol afirmou que os nativos não eram os melhores professores de inglês. Isso não é novidade para a maioria dos professores não nativos, mas ainda pega muita gente de surpresa. A pergunta é "Por quê? A resposta é bem simples. A menos que você faça aulas com um falante nativo que tenha sido capaz de aprender bem uma língua estrangeira, preferencialmente a sua, você não tem absolutamente nada de convincente de que esse indivíduo possa conduzi-lo no aprendizado de uma língua. É como contratar um guia para orientá-lo numa trilha que ele próprio não conhece. Ainda
que no plano subconsciente, você talvez não reconheça nesse indivíduo a capacidade de ensinar e seu diálogo interno pode incluir pensamentos como: "Quem é você para me cobrar esses verbos se você mesmo não sabe outra língua?" Isso, de forma alguma, significa que falantes nativos não possam ser excelentes professores. Eu conheço vários, mas fuja de pessoas cujas credenciais sejam obscuras. Ser falante nativo não é passaporte automático para ser bom professor.
Tenha muita cautela com aulas de conversação! Todo bom professor deveria saber que o aprendizado de uma língua se sustenta em quatro habilidades - fala, compreensão auditiva, leitura e escrita - e não apenas uma e que essas habilidades se retroalimentam de forma complexa. Ler, por exemplo, ajuda a falar, a escrever e até a entender o que se ouve. Aulas de conversação podem até ser úteis, mas quando o aluno é mais avançado. Tentar conversação sem ter estrutura e vocabulário em um formato livre de controle é dar oportunidade para que os vícios criem raízes. Se quiser comprovar essa tese, basta conversar com pessoas que tenham aprendido inglês "na marra", tendo passado tempo fora e sem ter dado a devida atenção ao estudo formal da língua. Muitas delas se comunicam, mas têm um inglês cheio de falhas gramaticais e vícios difíceis de corrigir. Além disso, quando o objetivo não é bem definido, as aulas tendem a virar uma repetição das mesmas conversas, com pouco ou nenhum progresso. Frequentemente a aula vira um bate-papo entre amigos e perde a finalidade pedagógica - se é que ela existiu algum dia. Da mesma forma que um terapeuta não é pago para ser seu amigo, quando o professor virar seu camarada, pare de pagar pela aula e transfira a conversa para o bar da esquina. Vai ficar mais em conta e possivelmente mais divertido.
Registro é muito importante. Em linguística, registro é uma variação na forma de se comunicar em função de exigências do contexto e dos falantes envolvidos. Na prática, isso significa que, se precisar aprender inglês profissional, vai ser bem difícil fazê-lo com um professor surfista da Califórnia que nunca teve um emprego de verdade na vida. O que me traz a uma outra preocupação, há professores, nativos e não nativos, que exploram enormemente o apelo das gírias e do inglês coloquial. Eles sabem que isso fascina muita gente, principalmente os mais jovens. Salpicar meu inglês deficitário de gramática com um monte de gírias, no entanto, não vai fazer meu inglês melhor. Ao contrário, isso só chama atenção para um descompasso. O mesmo princípio é válido para inglês de negócios, jurídico, etc. Jargão sem estrutura correta não impressiona ninguém. É lógico que esses segmentos são big business e não vai ser um descompasso alheio que vai impedir os inescrupulosos de vender aulas e cursos, sejam aqui, em Nova
York ou onde forem, certo? Por isso é necessário cultivar o discernimento quanto ao que realmente precisamos aprimorar. Só para constar, na vida profissional e acadêmica o que conta mesmo é inglês formal, com estrutura correta e vocabulário apropriado. Enfim, se quiser progredir de verdade, procure por profissionais dedicados especificamente ao ensino de inglês. De preferência com curso superior na área e provenientes de instituiçōes respeitadas. Os melhores profissionais também se mantêm sempre atualizados com especializações e cursos de pós-graduação. Se precisar de inglês para finalidades específicas, entrevistas, business English, exames, TOEFL, IELTS, seja lá o que for, procure quem tenha se especializado nesses segmentos. Peça para ver as credenciais de seu futuro professor e solicite referências. E finalmente, ao montar seu plano de estudos, não aceite propostas vagas e sem objetivo definido. Em suma, para quem pensa que uma aula é só uma aula, pense novamente. Aulas não são todas iguais. Muito menos os professores por trás delas. Em aquisição de linguagem, é bem difícil para muitos alunos distinguir entre um professor bom e outro ruim. Quem não domina uma língua não tem como detectar as falhas do interlocutor. É aí que entram as credenciais. Elas são seu certificado de garantia e refletem um professor que se preocupou em aprender o que precisava para, de fato, ensinar. Por isso, escolha com sabedoria. No meu próximo post vou tratar das picaretagens do mundo do inglês, de falantes nativos com anúncios em postes até o miraculoso método de inglês em 8 semanas.
Até lá!
Professor Jordan

Escrito por

Jordan Hahn Bandeira

PhD em Estudos Linguísticos e Literários em inglês pela USP; B.A. pela University of the State of New York; Michigan ECPE with Honors; British Council Certified IELTS Trainer; Tradutor Público e Intérprete Comercial Membro Credenciado da ABRATES


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